Daqui, da janela, enquanto a chuva varre as ruas do outro
lado do vidro, eu tento imaginar quantas pessoas estão lá fora. Não por falta
de abrigo, mas porque desejam estar. Porque tem braços para minimizar o frio,
porque tem amor para aquecer o coração.
Quantas pessoas estão se olhando agora
através das gotas d'água?
Quantas pessoas estão lá fora cantando e sorrindo?
Quantas estão correndo para casa em busca de um cobertor?
Quantas estão presas
no carro esperando um beijo de amor?
Choveu naquela noite, e ela sentiu um arrepio percorrendo a
espinha. Estava gelado, tão gelado que a única coisa que parecia permanecer
quente era seu coração. Ela olhava para a lareira sentada no chão, encostada no
sofá com um cobertor enorme que a enrolava por inteiro. Parecia nostálgica.
Como o amor pode ser uma coisa boa?
Como pode alguém achar que se sentir assim
é aceitável?
Um sentimento tão forte que congela a alma, mas faz questão de
manter o coração quente para torturar lentamente num dia de chuva.
Ela queria entender essa falta que existe. Primeiro de que, depois por que. Queria ser capaz de se sentir inteira antes de tentar se dividir com alguém. Precisava de certezas sobre muitas coisas, antes de deixar seu coração bater no peito de outra pessoa.

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